A festa tunante tomou conta do Baenão e contagiou até mesmo as torcidas rivais, que lotaram o estádio. (Foto: Cezar Magalhães/Arquivo)

Há 25 anos a Tuna Luso Brasileira levantou seu último título oficial no futebol masculino – venceu um turno do Parazão, em 2007, mas o campeonato mesmo não veio. A conquista do Campeonato Brasileiro da Série C de 1992 foi um dos últimos brilhos de uma fase extremamente gloriosa para a Elite do Norte. Após 13 anos sem conquistas, após o título paraense de 1970, a Tuna se reabilitou no cenário regional e nacional entre 1983 e 1992. Ao todo, foram 2 títulos estaduais (1983 e 1988), um Campeonato Brasileiro da Série B em 85, (o primeiro de uma equipe do Norte do Brasil) e um da Série C em 92, quando se tornou o primeiro time do Norte e Nordeste a levantar dois troféus do Brasileirão!

A Tuna, em 1992 era o time do Pará que mais levava a sério a máxima de formar e revelar craques. Na equipe comandada por Nélio Pereira naquele Brasileirão, somavam-se diversos talentos garimpados do interior do Pará, como os craques Ageu Sabiá e Sanauto (Monte Alegre), Mário Vigia (Vigia de Nazaré) e os craques revelados na base do próprio clube, como Tarciso, Ondino, Dema e o zagueiro Juninho, protagonista da decisão e autor do gol do título. No mesmo dia em que o time profissional derrotava o Fluminense de Feira de Santana pela Terceirona, o time sub-20 conquistava o tetracampeonato derrotando por 3 a 1 o Paysandu e lançando jogadores como Jobson e Giovanni ao futebol profissional.

Para chegar à conquista, a Tuna deixou pra trás 31 equipes naquela competição. Entre elas, adversários tradicionais como Moto Club e Sampaio Corrêa, do Maranhão, Nacional e Rio Negro, de Manaus, e equipes tradicionais de outros centros, como CRB-AL, Chapecoense-SC, Atlético-GO, ASA-AL, São Bento-SP e o próprio Fluminense de Feira de Santana, finalista, que, até hoje, não sabe explicar como, em 6 minutos, sofreu uma das mais inesquecíveis viradas de uma decisão de Campeonato Brasileiro.

Querido leitor, viaje conosco e veja como a Tuna chegou ao título da Série C, feito só igualado pelo Remo 13 anos depois – e que o Paysandu, até hoje, não conseguiu, batendo na trave em 2014.

O TIME DE MAIOR TORCIDA DO PARÁ

O ex-dirigente cruzmaltino Francisco Vasques (que dá nome ao estádio do Souza) costumava dizer que a maior torcida do Pará não era a de Remo ou Paysandu, mas da Tuna. “A Tuna é o primeiro time do coração dos tunantes e o segundo de bicolores e azulinos. Quando enfrentamos um dos rivais, os outros nos apoiam. Quando enfrentamos equipes de fora, os dois nos apoiam. Logo, o time mais amado do Pará, de longe, é a Tuna Luso”, brincava o dirigente. E era uma máxima que era difícil de negar em competições nacionais.


Sete anos antes, em 1985, com o apoio de azulinos e bicolores, a torcida da Tuna encheu o Mangueirão na final da Série B contra o Goytacaz-RJ. Mas o que aconteceu no Baenão naquele dia 14 de junho de 1992 era ainda mais impressionante. Não só as torcidas rivais se uniram, como as duas torcidas organizadas mais ligadas a episódios de violência na dupla Re-Pa, Remoçada e Terror Bicolor, dividiram as arquibancadas do estádio Evandro Almeida com suas faixas e cartazes tradicionais, mas apoiando para valer a Águia Guerreira do Norte.

O goleiro Altemir, a taça da série C e a multidão no gramado. (Foto: Cezar Magalhães/Arquivo)

 

Vale ressaltar que, àquela época, o ainda incompleto estádio Mangueirão contava com apenas uma rampa de acesso às arquibancadas. O clássico Re-Pa era sinônimo de violência e perigo ainda maior do que nos dias de hoje. A manifestação pacífica das organizadas, cada uma em um lado do estádio – é claro -, talvez seja o único feito tão impressionante, naquela tarde, quanto os três gols nos últimos 6 minutos que decidiram o jogo. Nunca havia se visto união similar antes. E nunca mais seria visto depois da conquista tunante.

O ATO FINAL: TESTE PARA CARDÍACO

Após uma derrota por 2 a 0 no estádio Joia da Princesa, o Fluminense de Feira de Santana chegou a Belém disposto a brigar para manter sua vantagem até o final. Dona de melhor campanha, a Tuna só precisava igualar o placar, com dois gols de vantagem, pra garantir o título.

As surpresas começaram já no primeiros minutos. O meia Dema, que retornava ao clube após empréstimo ao Ceará, fazia apenas seu segundo jogo na Série C quando foi expulso aos 12 minutos, após trocar agressões com Zelito. O árbitro paralisou jogada em que Tarciso mandava bola para o fundo da rede para expulsar os dois jogadores.

Com os times com um jogador a menos, a retranca do tricolor baiano ficou ainda mais forte e o primeiro gol veio de forma chorada. Após escanteio, Ageu acertou a trave e a bola caiu no pé de Juninho. O zagueiro matou a bola, cortou o zagueiro adversário e tocou novamente para Ageu, livre, abrir o placar aos 15 minutos. Festa das torcidas tunante, azulina e bicolor no Baenão. Faltava apenas um gol, mas o drama apenas começava.

O DRAMA E A FESTA

O goleiro adversário Eugênio estava impossível, fazendo grandes defesas, e a Tuna precisou se lançar ao ataque. O atacante Manelão entrou no posto de Varela, deixando o time paraense com 5 jogadores no ataque. Quando já estava com 9 jogadores em campo (Ieiê foi expulso), o Flu fez o improvável: em um lançamento em profundidade, Ronaldo ganhou de Juninho e tocou na saída de Altemir. 1×1 aos 42 do segundo tempo. A fatura parecia encerrada e a torcida começava a deixar o estádio. Mas ainda tinha jogo.

Buscando forças no além, um esgotado time da Águia virou o marcador aos 45, com Manelão finalizando cruzamento de Mario Vigia. Parte da torcida começou a voltar ao estádio. Ainda faltava um gol. Por conta das muitas paralisações que o Fluminense provocou, o árbitro Odílio Mendonça permitiu que o jogo se estendesse. E, num lance digno dos predestinados, Junior cobrou escanteio e Juninho testou sem defesa aos 49 do segundo tempo.

A torcida invadiu o gramado e iniciou uma festa enlouquecedora. Mas que precisou ser controlada. Após alguns minutos, o árbitro exigiu que os torcedores se retirassem e o que os times jogassem mais 5 minutos. Nada mudou e a festa estava liberada de vez.

(Taion Almeida/Diário do Pará)

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom ! Adoro ler sobre a história do futebol paraense. Gostaria que existisse uma coluna no Diário do Pará de domingo que focasse na memória do futebol paraense.

    Espero mais histórias.

    Parabéns pela iniciativa dessa matéria.

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